Release - JOSÉ

 

MONODRAMA CANTADO    

José, de Antonio Villeroy (Biscoito Fino, 2010)
Por Francisco Bosco  

 

 

        Antonio Villeroy bem poderia dizer, como disse de si um dos fundadores da poesia moderna: "Eu contenho multidões". (Des)conhecido pelo grande público como o compositor que está por trás de boa parte dos maiores sucessos de Ana Carolina, suas inquietações extrapolam para todos os lados o eterno presente da música pop. Quem o acompanha desde seu trabalho anterior, Sinal dos tempos, sabe disso. Ali há um diálogo claro com a tradição da canção "clássica" (acho que já se pode dizer assim) brasileira, que por sua vez é marcada por uma abertura artística que não se deixa limitar pela vontade de repetição da indústria cultural. Pois bem, o que Antonio Villeroy faz nesse novo trabalho, José, é oferecer ao público a sua face menos visível. Menos visível, porém não menos cantável: aqui se vão encontrar as mesmas melodias inspiradas de um cancionista para quem compor costuma estar mais próximo de receber que de procurar.

         E que cancionista é este? Eu diria que há duas forças, estéticas e existenciais, disputando, como dois Orixás, a cabeça de Villeroy. De um lado, as características que podemos reunir como formadoras de um estilo em tom maior: uma imaginação ambiciosa, em escala vasta, passando pela Bíblia e por Homero, vazada numa escrita metafórica, às vezes enigmática, discursiva, a frase melódica flertando com a prosa, com imagens hiperbólicas e grandiloquentes. São assim, por exemplo, a canção que abre o disco, "Ouro", e que trata de um afeto demasiadamente humano, a ambição. A ambição que moveu navios e sangrou as veias do Novo Mundo: "Metal raro, quem por ti não alucina?". Villeroy opera aqui no registro que chamei de maior, assim como em "Odisseia", alusão ao Odisseu homérico, onde há versos como esse: "Começo de uma rota sinuosa sob o hálito viscoso de neblina" (dois perfeitos decassílabos camonianos, diga-se de passagem).

         Mas há o Orixá do outro lado, que por sua vez deseja dar forma e rigor, exatidão e serenidade (é Apolo, para continuar nos termos politeístas). Aqui aparece o Villeroy amante da canção enxuta, cada coisa em seu lugar. Em "Recomeço" e "1 e 2", por exemplo, estão a forma perfeita da canção, a linguagem direta e coloquial, a emoção medida. São os traços de um estilo em tom menor. A esse tom menor me parece ter Villeroy aderido conscientemente: a instrumentação é em geral pequena, a sonoridade procura o suave, a precisão e a delicadeza, e o canto lhes acompanha.

         Mas por trás desses dois Orixás há um drama que se passa. Não é por acaso que a primeira palavra do disco é "Eldorado", e a última canção se abre perguntando: "E agora, você?". As canções desenham um percurso, uma errância, uma tentativa de saber o que aconteceu, o que se deve fazer e, sobretudo, quem se é. O Eldorado das imaginações quinhentistas é recusado em favor do olhar da mulher, que, esse sim, "é ouro". Mas a mulher o abandona na canção seguinte, e o sujeito, "pensava eu ser seu herói", desarvora. Não há encaixe, harmonia: "Quem eu quero bem/ Fica lá pensando eu não sei em quê". Essa tristeza acaba se tematizando, às avessas, na imprevista leitura de "Felicidade", que aqui se pode chamar com razão de lupicínica, recorrendo ao trocadilho. É o José Mané, o João Ninguém no fundo do poço. Mas o cinismo não é o forte de Villeroy, de modo que as canções reencontram sua alegria em faixas como "El guión" e "Velas para todos os santos", essa de sonoridade surpreendente.

         No fim, uma canção-síntese, que procura compreender o percurso realizado: "E agora, você?". Talvez seja por causa da angústia da errância, das dúvidas, das indefinições que Villeroy tenha optado deliberadamente por uma sonoridade em tom menor: um pouco de serenidade, por favor. Seja como for, depois do fim, uma faixa bônus, aparentemente despretensiosa, não deixa de nos contar um segredo: a alegria é a prova dos nove, e não existe criação triste. Triste é não criar.